UOL Cartões entrevista: Pryscila
Quem disse que mulher não sabe desenhar? Mais, que não pode trabalhar
profissionalmente com desenho? Apesar de poucas realmente atuantes no mercado,
principalmente de humor gráfico, a classe feminina está bem representada e
esbanja talento. Pryscila Vieira é a maior prova desta afirmação. Cartunista de
Curitiba, ela empresta há alguns meses sua grande capacidade criativa ao UOL Cartões. Em
destaque no cenário do desenho por conta da sua cria mais famosa, a boneca
Amely, Pryscila falou abertamente conosco sobre os mais variados assuntos e
aproveitou para comentar sua boa fase. Confira!

UOL Cartões - Você parece ser bem nova. Qual é a sua
idade?
Pryscila - Esta pergunta não se faz para
uma dama (pelo menos não para as que têm mais de trinta).
UOL
Cartões - Quando surgiu o interesse pelo desenho? Você sempre
desenhou?
Pryscila - Tenho uma história comum
entre vários cartunistas: desenho desde criancinha. E continuo com idade mental
de 10 anos. Só que eu desenhava melhor aos dez anos... Eu acho.
UOL Cartões - Conte-nos os principais veículos para os quais
trabalha/trabalhou.
Pryscila - Trabalhei por cinco anos na "Gazeta do Povo", do
Paraná. Fiz vinhetas animadas para a Rede Globo [imagem ao lado] durante sete
anos. Os Plim-Plins, sabe? Agora publico no "Metro" internacional na cidade de
São Paulo (o "Metro" é o maior jornal do mundo segundo o Guinness [o livro dos
recordes mundiais] – 21 milhões de exemplares distribuídos por dia!). Também
publico no "SexToy". Faço ilustrações publicitárias para as principais agências
de publicidade do país também. E, agora, ando publicando no site
"papodehomem".
UOL Cartões - Em algum momento da sua vida (seja
ele na fase em que decidiu se tornar ilustradora ou quando já trabalhava
profissionalmente), você chegou a pensar que poderia sofrer preconceito na sua
área de atuação pelo fato de ser mulher? Pensou em desistir por causa disso?
Pryscila - Nunca tive problemas por ser uma
mulher nesta área dominada quase exclusivamente por homens. Na verdade fui
descobrindo aos poucos que existem poucas mulheres fazendo humor gráfico. E eu
sinceramente não me incomodaria com preconceito. Isso é coisa de gente burra. Eu
passaria por cima, caso acontecesse. Jamais desistiria de uma meta por motivo
algum. Sou de Curitiba, interior do Brasil. As coisas geralmente acontecem muito
no Rio, São Paulo, Belo Horizonte e Porto Alegre. Mas, com o advento da
Internet, poderia morar em qualquer caverna e teria trabalho do mesmo
jeito.
UOL Cartões - A família influenciou negativamente, a
forçando a procurar outros ofícios?
Pryscila -
Até quiseram que eu fizesse arquitetura para que explorasse o dom do desenho.
Mas, quando botei um banheiro no meio da cozinha na planta da casa da praia que
meus pais pediram para eu criar, aí eles acharam melhor que fosse cartunista
mesmo.
UOL Cartões - Você já se sentiu diminuída em alguma
negociação de trabalho ou algum tipo de preconceito por ser mulher? Como
reagiu?
Pryscila - Nunca me senti diminuída.
Tenho 1.80 m. O difícil é suportar cantadas. Sou praticamente o clone da Pamela
Anderson com o Q.I. do Einstein, entende?
UOL Cartões - Embora
digam que as mulheres têm mais sensibilidade para as artes, o que se vê é que há
poucas delas trabalhando com ilustração e mais voltadas às artes plásticas. É
isso mesmo?!
Pryscila - Mulher acaba
desenhando mais história infantil e criando personagens infantis. Cartunistas é
que são raras. Mulheres não têm se dedicado ao humor gráfico, historicamente
falando.
UOL Cartões - Por que você acha que há esta "divisão" no
mercado? Acha que foi um processo "forçado" ou natural, sem intenção?
Pryscila - Acho que é natural, fato intrínseco ao
ofício da maternidade e ao foco da mulher na família. O humor acaba sendo item
supérfluo no pacote básico de sobrevivência da mulher, tão sobrecarregada de
tarefas que demandam extrema responsabilidade e tempo.

UOL Cartões - Qual(is) seria(m) a(s) grande(s)
vantagem(ns) da mulher com relação ao homem neste tipo de
trabalho?
Pryscila - Sensibilidade, cintura e
peitos. As desvantagens são a celulite e a TPM, que leva o bom humor de qualquer
um embora.


UOL Cartões - Você tem um trabalho fortemente dotado de
humor, de situações engraçadas. Se já é difícil encontrarmos mulheres
ilustradoras, o que diremos de cartunistas. Por que você escolheu trabalhar
diretamente com humor?
Pryscila - Você não
escolhe o humor. O humor é que te escolhe, baby (risos).
UOL
Cartões - O humor é uma característica sua no dia-a-dia, ou seja, você é mesmo
extrovertida, procurar ver sempre o lado bom das coisas, ou é um traço de sua
personalidade que só se nota nos seus
trabalhos?
Pryscila - Geralmente os humoristas
que tenho encontrado não levam trabalho para casa. São bem sérios. Parecem
contadores fora do horário comercial. Em compensação, alguns poucos são
completamente alucinados o tempo todo. Só vejo o lado ruim das coisas. E meu
trabalho consiste em rir para não chorar. Logo, procuro transformar a tragédia
em comédia. E este é um comportamento padrão, no horário comercial ou não. Cobro
entrada de R$ 5,00 para qualquer um que entre na minha casa. A diversão é
garantida no circo da Pryscila.
UOL Cartões - A boneca inflável Amely talvez seja a sua
personagem de maior repercussão hoje. De onde veio a inspiração para a
personagem? Ela é autobiográfica (risos)?
Pryscila - Todo mundo pergunta se a Amely é meu alter
ego. Mas a inspiração para a Amely vem exatamente do drama da mulher moderna. Ela é
porta-voz de todas as mulheres que se sentem traídas pelas próprias
conquistas.
UOL Cartões - Quais artistas influenciam o seu
trabalho?
Pryscila - Afe! São tantos! Mas meu
xodó é o Ziraldo.
UOL Cartões - Você é muito bonita e certamente
poderia ter investido na carreira de modelo. No entanto, preferiu o ofício do
traço, dos desenhos. Ficamos com a sensação de que as passarelas perderam um
grande talento, mas, em compensação, ganharam uma brilhante humorista gráfica.
Arrepende-se de alguma coisa? Você sente prazer no que
faz?
Pryscila - Não me arrependo porque não sou
tão bonita quanto as pessoas acham que sou. Na verdade sou uma mistura
heterogênea de Aracy de Almeida, Corcunda de Notre-Dame e Chupa-Cabras. Pago um
salário mínimo para que uma vizinha gostosa me represente nas reuniões,
encontros, fotos para imprensa, entrevistas na TV etc. A verdadeira Pryscila
esconde-se num abrigo nuclear russo e tem um terceiro peito na nuca... O que não
deixa de ser sexy, né?
UOL Cartões - Desenhistas costumam perder
boas horas de tempo e sono na prancheta, desenvolvendo trabalhos que, muitas
vezes, são para "ontem". Os homens do mundo querem saber: você tem namorado? Se
não, um eventual pretendente também precisa ser desenhista para entender os seus
compromissos?
Pryscila - Voltei a namorar o
ex-marido. Agora estou com uma dúvida: como o designo? Bem, de qualquer maneira
ele entende os meus ímpetos de tomar nanquim no café da manhã, de publicar
impiedosamente as histórias dele nas tirinhas e de rabiscar as paredes do
quarto. Acho que isso basta para me sentir amada e para amá-lo. Ah, e ele
desenha um bonequinho de palito como ninguém!
UOL Cartões -
Quando não está desenhando, o que gosta de
fazer?
Pryscila - Tomar e babar Todinho,
assistindo Muppets-primeira temporada.
UOL Cartões - Com relação
ao nosso produto, o que você mais gosta? E o que menos
gosta?
Pryscila - Gosto de
tuuuuuudinho!!!!
UOL Cartões - Quais conselhos e dicas daria para
as pessoas que gostariam de trabalhar com arte? O que é preciso para ser
bem-sucedido na profissão? Ter boas referências é fundamental ou pode-se criar
um estilo próprio independente?
Pryscila -
Estudar sempre. Ver as coisas boas tem que ser algo natural, todo dia, toda
hora. Deve-se estar sempre atento, de uma lagartixa perneta que sorri para você
na parede até para um quadro do Van Gogh que também sorri para você na parede.
Há de se achar beleza em tudo. Deve-se observar tudo com um olhar crítico e isso
deve ser natural, não forçado. Isso é estudo. Isso é referência.
Agora que você conhece um pouco mais sobre a carreira de Pryscila, conheça
alguns cartões produzidos exclusivamente por ela para a nossa página:


